Domingo, 10 de Outubro de 2010

Tempestade Anunciada (Storm Front) - Capítulo 1

 

 

 

Ouvi o carteiro se aproximar da porta do meu escritório, meia hora mais tarde do que de costume. Ele não soava muito bem. Seus passos eram mais pesados, mais robustos, e ele assobiava. Um novo cara. Ele assobiava enquanto se dirigia para a porta do meu escritório, e então ficou em silêncio por um momento. E daí ele riu.

E então ele bateu.

Me recuei. Minha correspondência é entregue através da fresta de correspondências a não ser que seja registrada. Tenho uma seleção realmente limitada de corespondências registradas, e nunca é boa notícia. Me levantei da cadeira e abri a porta.

O novo carteiro, que parecia como uma bola de basquete com braços e pernas e uma bronzeada cabeça careca, estava rindo para a placa na porta de vidro. Ele olhou para mim e apontou o dedão para a placa. "Você tá brincando, né?"

Li a placa (as pessoas a mudam ocasionalmente), e balancei a cabeça. "Não, falo sério. Posso receber minhas correspondências, por favor?"

"Então, uh. Tipo festas, shows, esse tipo de coisa?" Ele olhou para trás de mim, como quem espera ver um tigre branco, ou possivelmente algum assistente vestido com roupa engraçada zanzando pelo meu escritório de um cômodo.

Suspirei, não estava no clima para ser caçoado de novo, e estiquei o braço para pegar a correspondência que estava em sua mão. "Não, não esse tipo de coisa. Não faço festas."

Ele segurou a correspondência, sua cabeça se curvou em curiosidade. "Então o que? Algum tipo de vidente? Tipo cartas e bolas de cristal?"

"Não," disse a ele. "não sou um médium." Dei um tranco na carta.

Ele ainda segurava a correspondência. "O que você é, então?"

"O que diz a placa na porta?"

"Diz 'Harry Dresden. Mago.' "

"Sou eu," comfirmei.

"Um mago de verdade?" Ele perguntou, forçando uma risada, como querendo que eu o deixasse a par da piada. "Feitiços e poções? Demônios e encantamentos? Delicado e de pavio curto?"

"Não tão delicado." Sacudi a carta para fora de sua mão e olhei decididamente para prancheta. "Posso assinar por minha correspondência, por favor?"

O sorriso do novo carteiro desapareceu, sendo substituído por uma carranca. Ele me passou a prancheta para me deixar assinar pela correspondência (outro aviso atrasado do meu locatário), e disse, "Você é pirado. É isso que você é." Ele pegou sua prancheta de volta, e disse. "Tenha um bom dia, senhor."

Olhei ele partir.

"Típico," resmunguei, e fechei a porta.

Meu nome é Harry Blackstone Copperfield Dresden. Conjure-o por seu próprio risco. Sou um mago. Trabalho em um escritório no centro de Chicago. Até onde sei, sou o único mago profissional abertamente praticante no país. Você pode me achar nas páginas amarelas, na sessão de "Magos." Acredite ou não, sou o único lá. Meu anúncio se parece com isso:

 

HARRY DRESDEN – MAGO

Consultoria. Conselhos. Preços Razoáveis.

Sem Poções do Amor, Bolsas do Infinito, Festas, ou Outro Entretenimento.

 

Você focaria surpreso em saber quantas pessoas me ligam para perguntar se estou falando sério. Mas, se você tivesse visto as coisas que vi, e se soubesse metade do que sei, você se perguntaria como alguém pode não achar que estou falando sério.

Ao final do século vinte e alvorada do novo milênio tem visto uma espécie de renassença na percepção pública do paranormal. Médiuns, assombrações, vampiros – você escolhe. As pessoas ainda não os levavam a sério, mas todas as coisas que a Ciência nos prometeu não tinham acontecido. Doenças ainda eram um problema. Fome ainda era um problema. Violência, crime e guerra ainda eram problemas. Escarniando do avance da tecnologia, as coias simplesmente não mudaram do jeito que todos esperavam e pensavam que mudariam.

Ciência, a maior religião do vigésimo século, ficou meio arranhada por imagens de ônibus espaciais explodindo, filhos do crack, e uma geração de Americanos complacentes que permitiu que a televisão educasse suas crianças. As pessoas estavam procurando por alguma coisa – acho que só não sabiam o que era. E mesmo que estivessem começando a abrir seus olhos novamente para o mundo da magia e do arcano que tem estado com eles desde sempre, eles ainda acham que eu só possa ser uma espécie de piada.

De qualquer forma, foi um mês fraco. Um par de meses, na verdade. Meu aluguel de Fevereiro não foi pago até o décimo dia de Março, e estava parecendo que ia demorar ainda mais para eu pagar neste mês.

Meu último trabalho aconteceu na última semana, quando fui para Branson, Missouri, para investigar uma casa possivelmente assombrada de um cantor de country. Não era assombrada. Meu cliente não ficou feliz com essa resposta, e ficou ainda menos feliz quando sugeri que ele largasse quaisquer substâncias intoxicantes e tentasse fazer alguns exercícios e dormir, e ver se essas coisas não ajudariam mais do que um exorcismo. Recebi as despesas de viagem, mais uma hora de pagamento, e fui embora com o sentimento de ter feito a coisa honesta e justa. Ouvi mais tarde que ele contratou um médium charlatão para ir até lá e realizar uma cerimônia com um monte de incenso e luzes negras. Sempre me surpreendo com esse pessoal.

Terminei minhas anotações e as arremessei na caixa de CONCLUÍDOS. Tinha uma pilha de anotações lidas e descartadas em uma caixa de papelão de um lado de minha mesa, espirais retorcidas e páginas mutiladas. Sou terrivelmente cruel com livros. Estava olhando a pilha de livros não lidos, pensando sobre qual começar a seguir, tendo em vista que eu não tinha nenhum trabalho de verdade para fazer, quando meu telefone tocou.

Olhei para ele com um certo olhar intimidador. Nós magos somos magníficos em esperar. Após o terceiro toque, quando achei que não pareceria um tanto quanto afoito, atendi o telefone e disse, "Dresden."

"Oh. É, uhn, Harry Dresden? O, uhn, mago?" Seu tom era era defensor, como se ela estivesse terrivelmente assustada em estar me insultando.

Não, pensei. É Harry Dresden, o mangusto. Harry o mago é uma porta antes.

Aí está a prerrogativa para os magos serem rabugentos. Porém, não é a prerrogativa para consultores autônomos que estão com seus aluguéis atrasados, então ao invés de dizer alguma tirada espertinha, disse para a mulher ao telefone, "Sim, senhora. Como posso lhe ajudar hoje?"

"eu, hun," ela disse. "Não tenho certeza. Perdi uma coisa, acho que talvez você possa me ajudar."

"Achar artigos perdidos é uma de minhas especialidades," eu disse. "O que eu estaria procurando?"

Houve uma pausa nervosa. "Meu marido," ela disse. Sua voz era um pouco rouca, como a de uma líder de torcida que vem trabalhando em um longo campeonato, mas com bastante peso dos anos nela para taxá-la como uma adulta.

Minhas sombrancelhas se arquearam. "Senhora, não sou realmente um especialista em pessoas desaparecidas. Já entrou em contato com a polícia ou um detetive particular?"

"Não," ela disse rapidamente. "Não, eles não podem. É isso, não falei com eles. Oh, Deus, é tudo tão complicado. Não é algo que possa ser dito pelo telefone. Desculpe ter tomado seu tempo, Sr. Dresden."

"Espera," disse rapidamente. "Desculpe, não me disse seu nome."

Houve aquela pousa nervosa de novo, como se ela estivesse checando uma folha de anotações antes de responder. "Me chame de Monica."

Pessoas que não sabem nada de magos não gostam de lhes dar seus nomes. Estão convencidos de que se eles, através de seus próprios lábios, derem seus nomes a um mago, ele podem ser usados contra eles. Para ser honesto, eles estão certos.

Tenho de ser o mais educado e inofensivo que eu puder. Ela estava quase desligando por pura indecisão, e eu precisava do emprego. Eu poderia, provavelmente, achar o patrão, se eu trabalhasse na situação.

"Ok, Monica," disse a ela, tentando soar o mais melodioso e amistoso possível. "Se acha que sua situação é de natureza sensitiva, talvez você possa vir até meu escritório e falar sobre isso. Se eu realmente vier a ser sua melhor ajuda, o serei, e se não for, então posse lhe encaminhar para alguém que acho que possa ser melhor." Cerrei os dentes e fingi um sorriso. "Sem cobrar nada."

Pode ser que o negócio de não cobrar nada tenha funcionado. Ela concordou em vir imediatamente, e me disse que estaria lá em uma hora. Isto colocava sua hora de chega em mais ou menos duas e meia. Tempo o suficiente para eu sair e comer algo, e então voltar para o escritório para encontrá-la.

O telefone tocou de novo, quase que instantaneamente, me fazendo pular. Fiqueo olhando para ele de rabo de olho. Não confio em coisas eletrônicas. Qualquer coisa manufaturada após a década de quarenta é suspeita, e parece não gostar muito de mim. Você escolhe: carros, rádios, telefones, TVs, Videos Cassetes – nenhum deles parece se comportar bem comigo. Nem mesmo gosto de utilizar canetas automáticas.

Atendi o telefone com uma falsa alegria que invoquei para a Monica Marido-Desaparecido. "Aqui é Dresden, posso lhe ajudar?"

"Harry, preciso de você no Madison nos próximos dez minutos. Pode estar lá?" A voz do outro lado da linha também era a de uma mulher, soava tranquila, ligeira, empresarial.

"Olá, Tenente Murphy," caprichei, exagerando na sacarina, "É bom ouvir você também. Faz tanto tempo. Ah, sim, eles estão bem, estão bem. E sua família?"

"Poupe-me Harry. Tenho um casal de corpos aqui, e preciso que você dê uma olhada."

Fiquei sério imediatamente. Karrin Murphy era a diretora de Investigações especiais do centro de Chicago, realmente indicada pelo Comissário de Polícia para investigar crimes rotulados como incomuns. Ataques de vampiros, trolls pilhadores, e abduções feéricas de crianças não se encaixavam muito bem em um relatório policial, mas ao mesmo tempo, pessoas eram atacadas, bebês eram sequestrados, propriedades eram danificadas ou destruídas. E alguém tinha que investigar isso.

Em Chicago, ou quase em qualquer lugar na Terra de Chicago, este alguém era Karrin Murphy. Eu era sua biblioteca do sobrenatural ambulante, e consultor remunerado para o departamento de polícia. Mas, dois corpos? Duas mortes por meios desconhecidos? Nunca havia lidado com algo do tipo antes.

"Aonde você está?" Perguntei.

"Hotel Madison na Décima, sétimo andar."

"É só quinze minutos a pé do meu escritório," eu disse.

"Então vocêpode estar aqui em quinze minutos. Bom."

"Hun," eu disse. Olhei para o relógio. Monica Sem-Sobrenome estaria aqui em pouco mais de quarenta e cinco minutos. "Eu tenho uma espécie de compromisso."

"Dresden, tenho uma espécie de par de cadáveres sem pistas e sem suspeitos, e um assassino à solta. Seu compromisso pode esperar."

Meu temperamento se inflamou. Ele faz isso com frequência. "Na verdade, não pode," eu disse. "Mas vou te dizer, vou dar uma volta e passo aí para dar uma olhada, e estarei de volta para cá a tempo do compromisso."

"Já almoçou?" ela perguntou.

"Que?"

Ela repetiu a pergunta.

"Não", eu disse.

"Não almoce." Houve uma pausa, e quando ela falou de novo, havia um certo tom doentio em suas palavras. "É ruim."

"Quão ruim estamos falando aqui, Murph?"

Sua voz suavizou, e isso me assustou mais do que quaisquer imagens de morte violenta pudesse fazer. Murphy era a genuína garota durona, e ela se orgulhava em nunca ter demonstrado fraqueza. "É ruim, Harry. Por favor, não se atrase. O Crimes Especiais tá se coçando pra meter os dedos nesse caso, e sei que você não gosta que pessoas toquem a cena antes que você possa olhar."

"Estou indo," disse a ela, já ficando de pé e vestindo meu casaco.

"Sétimo andar," ela me lembrou. "Te vejo lá."

"Ok."

Apaguei as luzes do meu escritório, saí pela porta, a tranquei atrás de mim, fiz uma careta. Não tinha certeza o quanto iria demorar para investigar a cena de Murphy, e eu não queria perder a chance de falar com a Monica Não-Me-Faça-Perguntas. Então abri a porta novamente, peguei um pedaço de papel e uma taxinha e escrevi:

Saí por pouco tempo. De volta para compromisso às 2:30. Dresden.

Com isso feito, comecei a descer as escadas. Raramente uso o elevador, mesmo comigo trabalhando no quinto andar. Como eu disse, não confio em máquinas. Elas sempre estão quebrando quando mais preciso delas.

Além disso, se eu fosse alguém nessa cidade utilizando de magia para matar duas pessoas de uma vez, e não quisesse ser pego, teria certeza de remover o único mago praticante que o departamento de polícia tinha em suas fileiras. Gostava muito mais das minhas chances nas escadas do que nos confins estreitos do elevador.

Paranóico? Talvez. Mas só por que você é paranóico isso não quer dizer que não tenha um demônio invisível prestes a comer sua cara.


publicado por undercover às 09:42
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Vignette

Sentei num banco no laboratório abarrotado sob o porão de meu apartamento. Estava frio o suficiente para eu me sentir obrigado a usar um roupão, mas as dúzias (ou mais) de velas queimando ao redor da sala a deixavam quente. A lista telefônica estava na mesa a minha frente.

Olhei para meu anúncio nas Páginas Amarelas. Ele dizia:

 

HARRY DRESDEN – MAGO

Itens Perdidos Encontrados. Investigações Paranormais.

Consultoria. Conselhos. Preços Razoáveis.

Sem Poções do Amor, Bolsas do Infinito, Festas ou Outro Entretenimento.

 

Olhei para o crânio na prateleira sobre minha mesa e disse, "Não entendo."

"Chato, Harry," disse Bob, o Crânio. Tremeluzentes luzes laranjas dançavam nas órbitas oculares do crânio. "É chato."

Revirei mais algumas páginas. "É, bem. A maioria é. Acho que eles não trabalham com auto-relevo."

Bob revirou seus olhos luminosos. "Não literalmente chato, seu tonto. Chato no sentido atrativo. Não tem ambição. Não chama atenção. Não tem chutzpah."

"Não tem o que?"

O crânio de Bob virou para um lado e bateu o que teria sido sua testa contra um pesado candelabro de bronze. Após várias pancadas, ele se voltou para mim e disse, "É tedioso."

"Ah," eu disse. Esfreguei meu queixo. "Acha que eu poderia ter escolhido quatro cores?"

Bob olhou para mim por um segundo e disse, "Tenho pesadelos sobre o inferno, onde tudo que eu faço é somar números e tentar dialogar com pessoas como você."

Olhei para o crânio e concordei com a cabeça. "Ok, tá bom. Você acha que precisa de mais drama."

"Mais tudo. Drama pode dar conta. Ou seios."

Respirei fundo e vi para aonde estava indo aquela linha de pensamento. "Não vou contratar uma secretária pernuda, Bob. Desiste."

"Não falei nada sobre pernas. Mas como você tocou no assunto"

Pús as páginas amarelas de lado e peguei meu lápis novamente. "Estou fazendo fórmulas aqui, Bob."

"É formulae, O Maestro de Latim, e se você não se virar pra arrumar algum negócio, você não vai precisar dessas novas magias para muita coisa. A não ser que você esteja trabalhando em alguma magia para te ajudar a assaltar supermercados."

Escrevi com tanta força que a ponta do lápis quebrou, e olhei incomodado para Bob. "Então o que você acha que ele deveria dizer?"

Os olhos de Bob brilharam. "Fale sobre monstros. Monstros é uma boa."

"Dá um tempo."

"Tô falando sério, Harry! Ao invés daquela linha sobre consultoria e encontrar coisas, ponha 'Diabos Derrotados, Monstros Mutilados, Vampiros Vitimados, Demônios Demolidos'."

"Ah, claro," eu disse. "Esse tipo de aliteração vai atrair negócios."

"Vai sim!"

"Vai é me colocar no ramo de hospícios," eu disse. "Bob, não sei se alguém já te disse isso, mas a maioria das pessoas não acredita em monstros e diabos nem mesmo sabe que existam."

"A maioria das pessoas não acredita em poções do amor, também, mas você colocou lá."

Me segurei pra conter o mal humor. "O ponto," disse para Bob, "é ter um anúncio que pareça sólido, profissional e confiável."

"Claro. Anunciar se trata de mentir," Bob disse.

"Hei!"

"Você é horrível mentindo, Harry. Sério. Devia acreditar em mim nesse caso."

"Sem monstros," insisti.

"Tá bom, tá bom," Bob disse. "O que acha sobre darmos uma reviravolta positiva, então? Algo como, 'Donzelas resgatadas, encantamentos desfeitos, vilões desmascarados, unicórnios protegidos'."

"Unicórnios?"

"Garotas se amarram em unicórnios."

Revirei os olhos. "É um anúncio para meus negócios investigativos, não um serviço de encontros. Além disso, o único unicórnio que vi tentou me espetar."

"Você meio que está perdendo o total conceito de 'anunciar é mentir', Harry."

"Sem unicórnios," disse firmemente. "Tá bom do jeito que tá."

"Sem estilo algum," Bob retrucou.

Em minha cabeça tilintou um desafio. "Vamos ver até onde vai esse estilo."

"Ok, tá bem. Suponhamos que joguemos a inteligência aos ventos e somente venhamos a imprimir a verdade. 'Matador de vampiros, removedor de fantasmas, combatente de fadas, exterminador de lobisomens, consultor policial, oponente dos soldados do Inferno'."

Pensei nisso por um minuto, e então peguei um pedaço de papel em branco e escrevi. Olhei para as palavras.

"Tá vendo?" Bob disse. "Isso soaria realmente impressionante, atrairia notícia, e seria verdadeiro. O que você tem a perder?"

"O dinheiro da gasolina dessa semana," eu disse, finalmente. "Muitas letras. Além disso, Tenente Murphy me mataria se eu começasse a soprar trombetas sobre como eu ajudo os policiais."

"Você não tem jeito," Bob disse.

Balancei a cabeça. "Não. Não estou nisso pelo dinheiro."

"Então por que você está nisso, Harry? Diabos, no últimos anos você quase morreu um milhão de vezes. Por que você faz isso?"

Olhei de rabo de olho para o crânio. "Por quem alguém tem que fazer."

"Não tem jeito mesmo," Bob repetiu.

Sorri, peguei um lápis novo, e voltei para minhas fórmulas. Formulae. "Jeito nenhum."

Bob suspirou e ficou em silêncio. Meu lápis rabiscou sobre papel em branco enquanto as velas queimavam quentes e firmes.]

 

Fim!


publicado por undercover às 02:33
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Sábado, 9 de Outubro de 2010

Uma Restauração de Fé - Parte 4/4

 

Dresden

 

A menina não parecia nem de longe ter o peso que tinha quando eu a carregava. Estudei a ponte conforme nos aproximávamos. Talvez, se eu tivesse sorte, eu fosse capaz de correr pela ponte sem o troll conseguir me parar.

Tá. E talvez um dia eu vá a um museu de arte e me torne um especialista no assunto num estalar de dedos.

Pontes são a especialidade de trolls. Seja por causa de alguma mágica ou somente por aptidão, você nunca passa pela ponte sem encarar o troll. Essa é a vida, eu acho.

Pús a menina no chão, próxima a mim, e pisei na ponte. "Tudo bem, Faith," eu disse. "Seja lá o que acontecer, você corre para atravessar a ponte. Meu amigo Nick vai aparecer do outro lado a qualquer minuto a partir de agora."

"E você?"

Lhe dei um casual aceno com a cabeça. "Som um mago," eu disse. "Posso lidar com ele."

Faith me lançou outro olhar de extremo ceticismo, e tateou para segurar minha mão. Seus dedos pareciam muito pequenos e quentes dentro de minha mão, e uma forte explosão de determinação ocorreu através de mim. Não importa o que aconteceu, não deixaria nada de ruim acontecer a esta menina.

Nós caminhamos para a ponte. As poucas luzes que estavam brilhando mais cedo, tinham ido embora. Obra de Gogoth, sem dúvida. A noite reinava sobre a ponte e o rio Chicago gorgolejava, suave, frio e preto sob nós.

"Tô com medo," Faith murmurou.

"Ele é só um valentão," disse pra ela, "Encare ele de volta e ele vai se acovardar."

Como eu queria que isso fosse verdade. Continuamos a caminhar e demos a volta bem longe do bueiro no meio da ponte, comigo mantendo meu corpo entre Faith e a entrada do covil do troll.

Gogoth devia estar contando com isso.

Ouvi Faith gritar e levantei minha cabeça para ver o grosso e peludo braço do troll sobre a beirada da ponte, enquanto o troll se agarrava ao seu lado como uma imensa e pesadíssima aranha. Eu rosnei e pisei em seus dedos mais uma vez e o troll rugiu com raiva. Faith se libertou e eu meio que a arremessei em direção ao outro lado da ponte. "Corre, Faith!"

O braço do troll se embolou em minhas pernas, e ele veio subindo pela grade do lado da ponte, muito ágil e rápido para a sua compleição. Seus olhos ardentes se focaram na fugitiva Faith, e mais de sua baba gosmenta derramava de sua boca. Ele ergueu o cutelo no ar e se abaixou para saltar sobre a garota.

Eu já estava de pé, berrei, e me arremessei em direção a perna do troll, balançando minhas compridas pernas para se embolarem com as da criatura. Ele urrou com fúria e desabou junto comigo. Eu me ouvi gargalhando e decidido. Sem sombras de dúvida, tenho pelo menos um parafuso solto.

O troll me pegou pelo canto de meu guarda-pó e me arremessou contra a grade com força suficiente para que eu pudesse ver estrelas.

"Mago," Gogoth rugiu, cuspindo baba e espuma. O cutelo cortou o ar novamente e o troll veio para cima de mim. "Agora você morre e Gogoth mastiga seus ossos."

Consegui ficar de pé, mas era tarde demais. Não tinha caminho que eu pudesse correr, nem tinha tempo para me arremessar por sobre a grade.

Faith berrou, "Harry!" e um brilhante flash de luz rosa inundou a ponte e fez o troll voltar sua horrenda cabeça em direção ao outro lado do rio. Me esquivei para minha esquerda e corri, em direção à Faith e para longe do troll. Olhei para mais adiante e pude ver o carro de Nick roncando em direção a ponte, com velocidade suficiente para me dizer que meu parceiro havia visto que algo estava acontecendo.

O troll me seguiu, e embora eu tivesse ganho alguns passos de vantagem, eu tinha a desapontadora sensação de que a besta era mais rápida do que eu. Houve um barulho de assovio conforme o cutelo cortava o ar, e senti alguma coisa passar rente ao meu escalpo. Balancei para minha direita, e o segundo golpe errou por uma margem ainda menor. Perdi o equilíbrio, caí, e o troll estava sobre mim mais rápido do que uma batida de coração. Olhei para cima a tempo de ver ele levantar seu cutelo manchado de sangue sobre sua cabeça, para sentir sua saliva se chocar contra meu peito.

"Mago!" o troll urrou.

Ouve um grito e então a policial, aquela que havia me seguido antes, se arremessou nas costas do troll e o enforcou com seu cacetete. Ela deu uma torção prática no cacetete, e os olhos do troll se arregalaram. O imenso cutelo fez um grande barulho conforme caía da mão de Gogoth e atingia o chão.

A policial se atirou para trás, fazendo com que a espinha do troll se dobrasse, formando um arco – mas ela não estava lindando com um homem. A coisa torceu a cabeça, se espremeu, e saiu de sua imobilização, e então abriu sua imensa boca e com um urro frenético, tomado de fúria, literalmente arremessou para longe o quepe sobre a cabeça da policial e a enviou tropeçando para trás com os olhos arregalados. O troll, enlouquecido, desferiu um soco no asfalto, rachando-o, e recolheu a outra mão para atingir a cabeça da policial.

"Hei, feioso," gritei.

O troll se virou a tempo de me ver agarrar e golpear com o imenso cutelo em sua lateral.

A apodrecida e suja carne sob suas costelas se abriu com um uivo e com uma explosão de movimento. Gogoth arqueou sua cabeça para trás e deixou um berro agudo fugir. Me afastei, sabendo o que estava por acontecer.

A pobre policial olhava com o rosto pálido, tomada de horror, enquanto a ferida do troll se partia, e dúzias, centenas, milhares de pequeninas e frenéticas figuras se derramavam do rasgo em sua carne, se debatendo e berrando. Os imensos músculos da criatura murchavam como velhas bolas de basquete, lentamente caindo sobre as criaturinhas conforme a ponte ficava imunda com uma míriade de pequeninos trolls, suas minúsculas e horrendas cabeças não era maiores do que a cabeça de um presidente em uma moeda. Eles derramaram de Gogoth em uma inundação, esparramando-se sobre a ponte, formando uma horda torta e vacilante.

A face do troll se afundou, e seus olhos desapareceram. Sua boca se abriu como que se estivesse soltando um berro, e, conforme o nojento saco de couro que estava cheio de trolls se esvaziava, ele afundava no chão até lá ficar, como uma nojenta e descartada capa de chuva.

A policial olhava, boquiaberta, tentando formar uma oração ou uma maldição. Os faróis de Nick giraram e chegaram até ponte, e com mais de vinte mil gritos de protesto, os pequeninos trolls se dispersaram ante a luz em todas as direções.

Alguns segundos mais tarde, só havia eu, Faith, a policial, e Nick, se aproximando pela ponte. Faith se arremessou em mim e me deu um abraço rápido na cintura. Seus olhos brilhavam com empolgação. "Aquela foi a coisa mais nojenta que já vi. Quero ser uma maga quando crescer."

"Aquilo foi...foi..." a policial falava, atordoada. Ela não era alta, era atlética, e a perda de seu quepe revelou cabelos castanhos, porém, pálidos.

Eu pisquei para Faith, e balancei minha cabeça para a policial. "Um troll. Eu sei." Caminhei em direção ao quepe e assoprei a poeira dele. Uns poucos trolls, protestando sob o quepe, correram para a rua e desapareceram. A policial assistia com olhos perplexos. "Hei, muito obrigado pela ajuda, oficial..." vislumbrei seu distintivo. "Murphy." Sorri para ela e lhe dei seu chapéu.

Ela o aceitou com os dedos dormentes. "Oh, Deus. Como não percebi que ele havia caído?" Ela piscou algumas vezes e então olhou para meu rosto. "Você. Você era o meliante do rapto dos Astor."

Abri minha boca para me defender, mas nem precisei me incomodar.

"Tá brincando?" Faith Astor interrompeu. "Este bobo? Me sequestrar? Ele não conseguiria nem roubar um cigarro do homem do Marlboro." Ela virou para mim e piscou. Então estendeu os pulsos para Murphy. "Eu admito, oficial. Eu fugi de casa. Me leva pro quarto escuro e joga a chave fora."

Murphy, para seu crédito, parecia estar lidando bem com as coisas para alguém que acabara de confrontar o monstro debaixo da cama. Ela pegou seu cacetete e virou para Faith, examinando seus ferimentos antes de dar um olhar suspeito para Nick e eu.

"Oh, cara," Nick disse, posicionando seu corpo volumoso ao lado do meu. "Lá vai. Você pode ficar com a parte de cima do beliche, mas não vou apanhar seu sabonete no banho."

A policial olhou para mim e para Nick. Então olhou para a garota. Então, mais pensativa, olhou para a carcaça de couro que havia sido Gogoth, o troll. Seus olhos voltaram para Nick e para mim e ela falou, "Vocês não são aqueles que trabalham na Anjo de Retalho? A agência que procura por crianças desaparecidas?"

"Sim, sou o dono," disse Nick, com sua voz conformada. "Ele trabalha pra mim."

"Isso que ele disso," que seja, só entrei na dança para que Nick soubesse que não estava indo pro xilindró sozinho.

Murphy acenou com a cabeça, e olhou para a garota. "Está bem, querida?"

Faith fungou e sorriu para Murphy. "Tô com um pouco de fome, e queria alguma coisa pra limpar esses arranhões. Mas além disso, até que tô bem."

"E esses dois não raptaram você?"

Faith gargalhou. "Por favor."

Murphy acenou com a cabeça novamente e então apontou seu cacetete para mim e Nick. "Tenho de registrar isso. Vocês dois desapareçam antes que meu parceiro chegue aqui." Ela olhou de volta para Faith, e piscou. Faith sorriu para ela em retorno.

Murphy levou a garota de volta para o outro lado da ponte, para onde estavam as outras unidades policiais. Nick e eu cambaleamos de volta para o carro. O rosto honesto de Nick tinha uma expressão de alegria nervosa. "Inacreditável," ele disse. "Não posso acreditar no que aconteceu. Aquele era o troll, qual o nome mesmo?"

"Aquele era Gogoth," disse alegremente. "Nada maior do que um miolo de pão será incomodado por trolls nessa ponte por muito, muito tempo."

"Incareditável," Nick disse novamente. "Pensei que estávamos mortos. Inacreditável."

Olhei de volta para a ponte. Do outro lado da ponte, a garota estava de pé, acenando. Uma suave luz rosa fluía do anel em seu dedão direito. Pude ver o sorriso em seu rosto. A policial estava me observando, também, sua expressão era pensativa. Se tornou um sorriso.

Vida moderna pode ser uma porcaria. E o que criamos pode ser um lugar sombrio. Mas pelo menos não tenho que ficar sozinho nele.

Pús meu braço ao redor dos ombros de Nick, e sorri para ele. "É como eu venho te dizendo, cara. Você tem que ter fé."

 

Fim!


publicado por undercover às 08:39
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Uma Restauração de Fé - Parte 3/4

 

Dresden

 

Parei, hesitante.

"O que?" murmurou a garota.

"Polícia. Talvez eu deva te entregar."

Senti sua indifenreça esgotada. "Eles só vão me levar pra casa. Não me importo." Ela me abraçou de novo.

Engoli a seco. Os Astors eram a elite de Chicago. Eles tinham contatos suficientes ao redor da cidade para pôr de lado por um bom tempo um pretenso investigador particular. E eles poderiam contratar os melhores advogados.

É um mundo ruim, Dresden, a calma voz me falava. E os bons caras não vencem a não ser que possam pagar por um advogado caro, também. Você estará na prisão antes que possa piscar.

Minha boca se distorceu em um sorriso amargo conforme um dos policiais uniformizados, uma mulher, me viu e franziu a testa em minha direção. Me virei e comecei a ir para o outro lado.

"Hei," a policial disse. Continuei andando. "Hei!" disse ela de novo, e ouvi passos velozes na calçada.

Corri para os escuro, e entrei no primeiro beco. As sombras atrás de uma pilha de caixas criavam o refúgio ideal, e levei a garota comigo. Me agachei lá, na escuridão, e esperei, enquanto os passos da policial se aproximavam e então se foram.

Esperei no escuro, e senti todo o peso e escudirão se depositarem em minha pele, em minha carne. A garota apenas tremeu e deitou contra meu corpo, imóvel.

"Só me deixa," disse ela, finalmente. "Vai pra ponte. Ele vai deixar você atravessar se eu não estiver com você."

"Sim," eu disse.

"Então vai. Vou aos policiais após você ter ido. Ou algo assim."

Ela estava mentindo. Não tenho certeza de como eu podia afirmar isso, mas eu podia.

Ela iria para a ponte.

Fui ensinado que coragem é fazer o que você tem de fazer, mesmo que você esteja com medo. Mas algumas vezes eu me pergunto se coragem não é mais complicada do que isso. Algumas vezes, eu acho, a coragem te puxa para longe do chão mais uma vez. Fazendo um teatrinho de marionete, mesmo que você não queira. Talvez seja pura teimosia, sei lá.

Não importa. Não para mim. Eu sou um mago. Não pertenço a este lugar mesmo. Nosso mundo não presta. Pode ser muito bom para os trolls e os vampiros e todas aquelas coisas horrendas que assombram nossos pesadelos (enquanto pressionamos nossos livros de física contra nossos peitos e reafirmamos para nós mesmo que eles não podem existir), mas não sou parte disso. Não quero ser parte disso.

No escuro, tomei fôlego, e perguntei, "Qual seu nome?"

Ela ficou em silêncio por um momento, e então disse, com uma voz muito insegura, "Faith."

"Faith," eu disse. Ri, para que ela pudesse ouvir. "Meu nome é Harry Dresden."

"Olá," ela disse, sussurrando.

"Olá. Alguma vez já viu algo assim?" Cobri minha mão, invoquei um dos últimos resquícios do meu poder, e lancei uma quente e crescente luz para dentro do anel em minha mão direita. Isso iluminou o rosto de Faith, podia ver em suas macias bochechas os caminhos feitos pelas lágrimas que não ouvi cairem.

Ela balançou a cabeça.

"Aqui," eu disse, e tirei o anel de meu dedo. Então o deslizei para ela, para seu dedão direito, aonde o anel ficava menos solto. A luz morreu conforme eu fiz isso, nos deixando no escuro de novo. "Deixa eu te mostrar algo."

"A bateria acabou," ela murmurou. "Não tenho dinheiro para outra."

"Faith? Você se lembra do melhor dia de sua vida?"

Ela ficou quieta por um minuto. E então disse, sua voz era pouco mais que um sussurro, "Sim. Um Natal. Quando vovó ainda era viva. Vovó era boa comigo."

"Me fale sobre isso," pedi, em voz baixa, cobrindo a mão dela com a minha.

Senti ela dar de ombros. "Vovó veio na véspera do Natal. Nós jogamos jogos. Ela brincou comigo. E ficamos no chão, perto da árvore de Natal, esperando por Papai Noel. Ela me deixou abrir só um presente, para a véspera do Natal. Era o que ela havia me dado."

Faith deu um suspiro cansado. "Era uma boneca. Um bebê boneca. Mamãe e Papai me deram as coisas da Barbie, a linha toda daquele ano. Eles disseram que se eu deixasse todas elas nas caixas originais elas valeriam muito dinheiro mais tarde. Mas vovó entendeu o que eu queria de verdade."

Então eu ouvi, o pequeno sorriso em sua voz. "Vovó se importava comigo."

Retirei minha mão, e uma luz suave e rosada fluía para fora do anel ao redor de seu dedão, um gentil e amável calor. Ouvi Faith fazer um som de surpresa, e então, um sorriso de felicidade se abriu sobre sua boca.

"Mas como?" ela sussurrou.

Lhe dei um sorriso. "Mágica," eu disse. "Do melhor tipo. Uma pequena luz no escuro."

Ela levantou sua cabeça em minha direção, estudando meu rosto, meus olhos. Fiquei envergonhado com o que ela podia perceber com aquele olhar. "Preciso voltar, não é?" ela perguntou.

Retirei um pouco de cabelo caído sobre sua testa. "Existem pessoas que te amam, Faith. Ou que um dia amarão. Mesmo que você não possa as ver ao seu lado, aqui mesmo, agora mesmo, elas estão lá fora. Mas se você deixar a escuridão entrar em seus olhos, você pode nunca encontrar essas pessoas. Então é mehor levar um pouco de luz com você, pelo caminho. Você acha que pode se lembrar disso?"

Ela concordou com a cabeça, seu rosto iluminado pela luz do anel.

"Toda vez que ficar muito escuro, pense nas coisas boas que você tem, os momentos bons que você teve. Isso vai lhe ajudar. Prometo."

Ela se inclinou em minha direção e me deu um simples, abraço de confiança. Senti minhas bochechas ficarem couradas quando ela fez isso. Ah, que seja.

"Temos de ir," falei para ela. "Temos de cruzar a ponte e encontrar meu amigo Nick."

Ela mordeu os lábios, sua expressão se tornou imediatamente preocupada. "Mas o troll..."

Eu pisquei. "Deixa ele comigo."

 

Continua!


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Quarta-feira, 6 de Outubro de 2010

Uma Restauração de Fé - Parte 2/4

 

 

 

Ela chegou primeiro na ponte, uma antiga ponte de duas vias que se arqueava sobre o rio Chicago e se arremessou em direção a ela.

"Espera!" gritei atrás dela. "Não!" Ela não conhecia essa cidade como eu conheço.

"Babaca," ela devolveu, sua voz parecia cheia de energia. Ela continuou correndo.

E ela continuou assim até que um grande, viscoso e peludo braço se esgueirou por debaixo da tampa de bueiro no meio da ponte e enrolou seus escorregadios dedos em um de seus tornozelos. A menina gritou em súbito terror, se esborrachando de frente no asfalto e arranhando a pele de ambos os joelhos. O sangue formava manchas escuras em suas meias sob o brilho das poucas luzes funcionais dos postes.

Xinguei baixinho e investi em direção a ela, pulmões saindo pela boca. A mão se apertou, e começou a arrastá-la de para o boeiro. Eu podia ouvir uma profunda e crescente gargalhada vindo das trevas no buraco que ia para baixo da sub-estrutura da ponte.

Ela gritou, "O que é isso, o que é isso? Faz isso me soltar!"

"Garota!" gritei. Corri em cireção ao bueiro, saltei e aterrissei o mais pesado que pude sobre o braço peludo, bem no pulso, o solado de ambas as botas esmagando a carne suja.

Uma barriga surgiu do bueiro, e os dedos afrouxaram. A garota virou a perna, e acho que isso custou a ela um de seus caros Oxfords e um pé de meia, ela se arrastou para longe das garras, soluçando. Eu a peguei e recuei, não seria idiota de dar minhas costas para o bueiro.

Não era pro troll ser capaz de se espremer para fora de um buraco tão pequeno, mas ele o fez. Primeiro veio aquele braço sujo, seguido de um ombro encaroçado, e então sua cabeça mal formada e rosto hediondo. Ele olhou para mim e rosnou, saido do bueiro com uma facilidade viscosa, até ele ficar no meio da ponte entre eu e o outro lado do rio, como um lutador profissional de luta-livre que fora vítima de um cirurgião plástico por correspondência. Em uma mão, ele segurava um enorme cutelo, com uma lâmina de aproximadamente sessenta centímetros, com um cabo de osso e manchas marrom escuras muito suspeitas.

"Harry Dresden," o troll roncou. "Mago nega Gogoth de sua presa por direito." Ele balançou o cutelo para a esquerda e para a direita. A arma soltou um pequeno assovio conforme mutilava o ar.

Ergui minha cabeça e afirmei meu queixo. Não é muito inteligente deixar um troll ver que você está com medo dele. "Do que você está falando, Gogoth? Você sabe tanto quanto eu que mortais não fazem mais parte do jogo. O Acordo Unseelie estabeleceu isso."

A cara do troll se contorceu com olhar realmente maligno. "Criança bagunceira," ele rosnou. "Criança bagunceira ainda é minha." Seus olhos se apertaram, e começaram a arder com uma fome maliciosa. "Dá! Agora!" O troll avançou alguns passos em direção a mim, adquirindo uma vantagem momentânea.

Levantei minha mão direita, forcei um pouco de vontade, e o anel de prata sobre meu terceiro dedo brilhou com uma clara luz frígida, mais brilhante do que a iluminção em volta da gente.

"Lei da selva, Gogoth," eu disse, mantendo minha voz calma. "Sobrevivência do mais apto. Você dá outro passo e vai parar na categoria 'muito idiota para viver'."

O troll rosnou, não diminiu a passada, e levantou um punho brutal.

"Pense bem, criatura das trevas." rangi os dentes. A luz emanando de meu anel assumiu um tom diabólico, quase nuclear. "Mais um passo e você vira vapor."

O troll exitou, e seus lábios emborrachados cor de limo se afastavam de presas fétidas. "Não," ele roncou. Saliva escorria de suas presas e se esborrachava no asfalto enquanto ele encarava a menina. "Ela é minha. Mago não pode interferir nisso."

"Ah é?" eu disse. "Então, olha." E com isso, baixei minha mão (junto com a intimidadora luz prateada), dei ao troll meu melhor olhar intimidador, e com estilo, virei meu guarda-pó escuro para voltar para a Avenida Norte com passadas longas e confiantes. A garota olhava por sobre meu ombro, olhos arregalados.

"Ele está vindo atrás da gente?" perguntei baixinho.

Ela olhou para o troll, e então, para mim. "Uh, não. Ele tá só olhando pra você."

"Ok. Se ele começar a andar, me deixe saber."

"Pra você pode vaporizar ele?" ela perguntou, sua voz, trêmula.

"O diabo que eu vou. Aí a gente corre."

"Mas e sobre...?" ela tocou o anel em minha mão.

"Menti, garota."

"O que!?"

"Menti," repeti. "Não sou um bom mentiroso, mas trolls não são muito espertos. Foi só um show de luzes, e ele caiu, e é isso que importa."

"Pensei que você tinha dito que era um mago," ela me acusou.

"Eu sou," respondi, contrariado. "Um mago que estava em uma assembléia-barra-exorcismo antes do café da manhã. Então tive de encontrar dois anéis de casamento e um par de chaves de carro, daí passei o resto do meu dia correndo atrás de você. Tô acabado."

"Você podia explodir aquela...aquela coisa?"

"Era um troll. Claro que eu poderia," eu disse, orgulhoso. "Se eu não estivesse tão cansado, e se fosse capaz de me focar o suficiente para evitar explodir a mim mesmo junto com ele. Minha mira é ruim quando estou cansado desse jeito."

Alcançamos o final da ponte, e, torci, final do território de Gogoth. Comecei a pôr a garota no chão. Ela era muito grande para ser carregada. Então eu vi um pé descalço balançando, e sangue formando placas escurdas em seu joelho. Suspirei, e comecei a caminhar pela Avenida Norte. Se eu puder descer o longo quarteirão para a próxima ponte, atravessá-la e percorrer o outro quarteirão dentro de meia hora, e ainda poderia encontrar Nick do outro lado.

"Como está sua perna?" perguntei.

Ela deu de ombros, embora housse dor em seu rosto. "Ok, eu acho. Aquela coisa era de verdade?"

"Pode apostar," eu disse.

"Mas ele era...ele não era..."

"Humano," eu disse. "Não, mas que diabos, garota. Um monte de pessoas que eu conheço, não são realmente humanas. Olhe a nossa volta. Bundy, Manson, os outros animais. Aqui mesmo em Chicago, você tem os Vargassis atuando em Little Italy, as gangues Jamaicanas, outros. Animais. O mundo está cheio deles."

A garotou fungou. Olhei para seu rosto. Ela parecia triste, e muito sábia para a sua idade. Meu coração derreteu.

"Eu sei," ela disse. "Meus pais são assim, um pouco. Eles não pensam em mais ninguém, na verdade. Só neles mesmos. Nem mesmo um no outro – exceto no que podem ganhar entre si. Eu sou apenas um brinquedo que deve ficar jogado no armário e arrastado para fora quando as pessoas aparecem, aí eu posso ser mais bonita e mais perfeita do que seus outros brinquedos. No restante do tempo, eu fico no caminho deles."

"Hei, anime-se," eu disse. "Não é de todo ruim, não é?"

Ela olhou para mim, e virou o rosto. "Não vou voltar pra eles," ela disse. "Não me importa quem você seja ou o que você faz. Você não pode me fazer voltar para eles."

"Aí é que você se engana," eu disse. "Não vou te deixar aqui."

"Ouvi você falando com seu amigo," ela disse. "Meus pais estão tentando te sacanear. Por que você ainda está fazendo isso?"

"Tenho outros seis meses para trabalhar para um investigador licenciado antes que eu possa receber minha própria licença. E eu tenho essa coisa estúpida sobre abandonar crianças no meio de grandes e malvadas cidades após escurecer."

"Pelo menos aqui em baixo, ninguém tenta mentir e me dizer que eles se importam, senhor. Eu vi todos aqueles shows da Disney sobre como os pais amam seus filhos. Como se existisse alguma espécie de elo mágico de amor. Mas isso é mentira. Como você e aquele troll." Ela deitou a cabeça no meu ombro, e eu pude sentir o cansaço de seu corpo conforme me abraçava. "Não existe mágica."

Fiquei em silêncio por vários passos, somente a carregando. Foi difícil ouvir aquilo de uma criança. O mundo de uma garota de dez anos devia ser cheio de música, risadas e notas, e bonecas, e sonhos. Não uma realidade cruel, árida e esgotada. Se não existia luz no coração de uma criança, uma garotinha como essa, então qual esperança qualquer um de nós poderia ter?

Alguns passos mais tarde, eu percebi algo que não estava querendo admitir para mim mesmo. Uma silenciosa e calma voz vinha tentando me dizer alguma coisa que eu não estava disposto a ouvir. Eu estava no ramo da magia para tentar ajudar pessoas. Para tentar fazer as coisas melhores. Mas não importa quantos espíritos malignos eu tenha confrontado, não importa quantos pretensos magos negros eu tenha rastreado, sempre tinha mais alguma coisa, pior, esperando no escuro por mim. Não importa quantas crianças perdidas eu encontrasse, sempre existiria dez vezes mais desaparecidas.

Não importa o quanto eu tentasse, quanto lixo eu limpasse, era só uma gota no oceano.

Pensamentos pesados para um cara como eu, cansado e dolorido, meus braços pesavam com o peso da menina.

Luzes piscando me fizeram levantar a cabeça. A boca de um dos becos entre os prédios havia sido lacrada com fita policial e quatro carros, luzes azuis girando, estavam estacionados na rua em volta do beco. Um par de paramédicos estavam retirando uma figura coberta em uma maca para fora do beco. Os flashes das câmeras iluminavam o beco em explosões brancas.

Parei, hesitante.

 

Continua!


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Uma Restauração de Fé - Parte 1/4

 

 

 

Eu lutava para segurar a escandalosa criança enquanto fazia malabarismos para enfiar uma moeda de vinte e cinco centavos dentro do telefone público e esmurrava os botões para ligar para o celular de Nick.

"Investigações Anjo de Retalho", Nick respondeu. Sua voz estava tensa, percebi, ansiosa.

"É o Harry," eu disse, "Relaxa, cara. Achei ela."

"Achou?" Nick perguntou. Ele deixou fugir um longa suspiro de alívio. "Oh, Deus, Harry."

A criança levantou um dos seus sapatos Oxford e deu um coice em minha virília. Ela acertou, forte o suficiente para me fazer pular. Ela parecia como um modelo de criança com seus oito ou nove anos, com suas covinhas e escuras maria chiquinhas – mesmo estando com seu uniforme de escola todo sujo de rua. E que pernas fortes ela tinha.

Segurei a criança com mais severidade e a tirei do chão de novo enquanto ela se contorcia e se balançava. "Ei, fica quieta."

"Me solta, seu magrelo," ela respondeu, me fuzilando com os olhos antes de começar a chutar novamente.

"Ouve só, Harry," Nick disse. "Você tem que deixar a garota ir embora neste exato minuto e sair daí."

"O que?" Perguntei. "Nick, os Astors vão nos pagar vinte e cinco pratas para levar a garota de volta antes das nove da noite."

"Tenho umas notícias ruins, Harry. Eles não vão nos pagar."

Eu vacilei. "Ai.Talvez eu a deixe largue na delegacia mais próxima, então."

"As notícias são ainda piores. Os pais deram queixa, falaram que a garota foi sequestrada. E o Departamento de Polícia de Chicago está enviando duas descrições para toda a cidade. Eles se parecem adivinha com quem?"

"Mickey e Donald?"

"Heh," Nick disse. Ouvi ele manusear sua Bic, e se lamentar. "Como se tivéssemos tanta sorte."

"Acho que é mais vergonhoso para o Senhor e Senhora Podres de Rico vazar que a filha fugiu ao invés de ter sido raptada."

"Diabos. Garota raptada vai dar assunto pra eles conversarem nas festas durante meses. Os faz parecer mais ricos ricos e mais famosos que seus amigos, também. Claro, estaremos presos, mas que diabos, quem se importa?"

"Eles nos procuraram," protestei.

"Não foi dessa forma que eles falaram para a polícia."

"Droga," eu disse.

"Se você for pego com ela, pode ser problema pra gente. Os Astors tem contatos e influências, cara. Larga a menina e volta pra casa. Você esteve lá a noite toda, se perguntarem."

"Não, Nick," eu disse. "Não posso fazer isso."

"Deixa os caras de farda levarem ela pra casa. Isso vai limpar a sua barra, e a minha também."

"Estou na Avenida Norte, e já está escuro. Não vou deixar uma menina de nove anos por aí sozinha."

"Dez," gritou a garota furiosa. "Tenho dez anos, seu idiota insensível!" Ela deu mais alguns chutes, eu meio que me pús fora do caminho de seus pés.

"Ela parece tão bonitinha. Deixa ela ir embora, Harry, e os criminosos que se cuidem."

"Nick."

"Ah, diabos, Harry. Lição de moral de novo?"

Sorri, mas foi apenas superficial, meu estômago se contorcia de raiva. "Veja bem, vamos pensar em algo. Apenas chega aqui e pega a gente."

"O que aconteceu com seu carro?"

"Quebrou nesta tarde."

"De novo? E quanto ao El?"

"Tô duro. Nick, preciso de uma carona. Não posso voltar pro escritório com ela, e nem quero ficar aqui parado numa cabine telefônica me degladiando com a menina. Então vem pra cá e pega a gente."

"Não quero ir preso por que você não consegue acalmar sua consciência, Harry."

"E sobre a sua consciência?" disparei de volta. Nick ficou furioso. Mas no fim das contas, ele não podia deixar a garota sozinha naquela parte da cidade também.

Nick resmungou algo que soou vagamente obsceno, e então disse, "Tá bem, que seja. Mas não posso cruzar o rio tão facilmente, então estarei do outro lado da ponte. Tudo que você tem que fazer é atravessar a ponte com ela e não ser visto. Viaturas policiais na área estão procurando por você. Meia hora. Se você não estiver lá, não vou esperar. Vizinhança barra pesada."

"Tenha fé, cara. Vou estar lá."

Desligamos sem nos despedir.

"Tudo bem, garota," eu disse. "Pare de me chutar e vamos conversar."

"Vai pro inferno," ela gritou. "Me deixe ir antes que eu quebre sua perna."

Recuei com o tom agudo que a voz dela alcançou, e saí de perto do telefone, meio que arrastando e meio que carregando ela comigo, olhando para os lados de modo apreensivo. A última coisa que eu precisava era de um bando de bons cidadãos correndo pra ajudar a menina.

As ruas estavam vazias, a escuridão corria e se amontoava para preencher os espaços deixados pelas luzes quebradas dos postes. Tinha luzes nas janelas, mas ninguém veio em resposta ao grito da menina. Era o tipo de vizinhança onde ninguém nunca via nada.

Ah, Chicago. Impossível não amar as enormes e povoadas cidades Americanas. A vida moderna não é sensacional? Eu poderia ser um psicopata de verdade, ao invés de apenas parecer um, e ninguém teria feito nada.

Isso me deixou meio enjoado. "Olha. Sei que você está com raiva agora, mas acredite em mim, estou fazendo o que é melhor para você."

Ela parou de chutar e me encarou. "Como você sabe o que é melhor para mim?"

"Sou mais velho que você. Mais sábio."

"Então por que você está usando essa capa?"

Olhei para o meu grande guarda-pó preto, com seu manto pesado e longas dobras de lona esvoaçando ao redor da minha constituição magra. "O que tem de errado com minha roupa?"

"Ela fazia parte do figurino de El Dorado," ela retrucou. "Quem você era pra ser, Ichabod Crane ou o Homem Marlboro?"

Resmunguei. "Sou um mago."

Ela me deu aquele olhar de ceticismo que somente crianças que recentemente passaram  pelo triste trauma de descobrir que não existe Papai Noel. (Ironicamente, ele existe – mas ele não pode trabalhar com a mesma escala que estava acostumado a fazer quando todos acreditavam nele. Mais caracteríticas da vida moderna.)

"Você tá me gozando," ela disse.

"Eu te achei, não foi?"

Ela franziu a testa. "Como você me encontrou? Pensei que aquele lugar era perfeito."

Continuei andando em direção à ponte. "E ele teria sido, por mais ou menos mais dez minutos. Então aquela lixeira estaria cheia de ratos procurando por algo para comer."

A expressão da menina ficou palidamente verde. "Ratos?"

Concordei com a cabeça. Com um pouco de sorte, talvez eu pudesse ganhar a confiança da menina. "Ainda bem que sua mãe tinha sua escova de cabelos na bolsa dela. Pude pegar um pouco de cabelo."

"E daí?"

Suspirei. "E daí que eu usei um pouco de taumaturgia e ela me guiou direto para você. Tive que andar a maioria do caminho, mas direto para você."

"Tauma o que?"

Perguntas eram melhores do que chutes, em qualquer hora. Continuei respondendo. Diabos, gosto de responder perguntas sobre mágica. Orgulho profissional, talvez. "Taumaturgia. É mágica ritual. Você desenha conexões simbólicas entre pessoas, lugares, eventos e modelos representativos reais. Então você investe um pouquinho de energia para que algo aconteça na pequena escala, e algo acontece na grande escala também - "

A garota virou a cabeça no segundo em que eu estava distraído sua pergunta e mordeu minha mão.

Gritei algo que provavelmente não deveria ter gritado perto de crianças, e puxei minha mão. A menina caiu no chão, ágil como um macaco, e saiu correndo em direção à ponte. Sacudi minha mão, gritei comigo mesmo e saí correndo atrás dela. Ela era rápida, seus rabos de cavalo flutuavam atrás dela, sapatos e meiões sujos voavam noite adentro.

 

Continua!


publicado por undercover às 18:50
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O Dia Após o Ragnarok - A Queda da Serpente

 

Dispositivo Trindade

 

A morte de Patton em Setembro não fez com que acontecesse embora os viciados histéricos nos porões de Wewelsburg tivessem afirmado que a "Operação Walküre" de Skorzeny havia mudado as coisas, que o general Americano era "a corda das Norns," de alguma forma ligado ao passado e futuro de um modo que outros não eram. Sua queda, eles juravam, sinalizava o novo Crepúsculo. Mas a batalha quase cessou quando Moselle fora avistada, e Montgomery lentamente empurrou a Wehrmacht de volta pelas Ardenas. "Não se preocupe," juraram os homens de da Ahnenerbe, suando anfetaminas e fedendo a extintas ervas colhidas dos pântanos Finlandeses. "A corda dos Norns fora partida. As coisas seriam diferentes."

Montgomery avançou sobre Lübeck, os tanques rugiam mais pertos de Nuremberg, e Zhukov massacrava através do Oder, e o sol de Julho nasceu sobre um Reich humilhado. A Götterdämmerung tocou na Rádio Berlim noite e dia, e a fumaça borrava as estrelas. E então, aconteceu; todo o mundo ouviu o uivo de Garm, e a lua fora obscurecida com sangue. A cabeça de Jörmungandr, a Serpente Midgard, 350 milhas de lado a lado, rasgou a superfície do Mar Árabe e se ergueu alcançando a troposfera. Seu primeiro bote destruiu três combois de tropas e suas escoltas transportadoras, engoliu, em uma mordida, 100 milhas do sul dos Açores. Uma espiral da Serpente agora se esticava através da África de Mogadishu até Marrocos.

Quando a cabeça se levantou novamente, saindo da Baía de Vigo, ela engoliu o U.S.S. Essex e TF 24, e parou para estilhaçar mais algumas centenas de milhares de toneladas de navios. Presidente Truman deu a permissão, e um B-29 solitário partiu da Islândia. Seu alvo original era Berlim, mas Capitão Joseph Westover possuía novas ordens. Ele e a tripulação do Carregamento Estranho, foram perseguir e confrontar a Serpente Midgard com o Dispositivo Trindade, a Bomba Atômica. Em 21 de Julho de 1945, aviões batedores da "Operação John Henry" posicionaram o Carregamento Estranho sobre a Serpente, o avião se encontrava a 20.000 pés sobre Oslo e se movia para sudoeste em 80 nós. Capitão Westover era um piloto virtuoso, capaz de voar com um avião através de algo muito menor do que a pupila os 500 de largura metros de pupila de uma serpente. O dispositivo detonou, rasgando um pedaço do Sol, e direto do céu, o trouxe para baixo, destruindo o cérebro da Serpente em uma torrente de fogo atômico. Westover e sua tripulação morreram instantâneamente. Jörmungandr levou um pouco mais do que isso.

 

Continua...


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Terça-feira, 14 de Setembro de 2010

O Velho Cemitério

 

Dessa vez era pra valer. Zak não podia dar pra trás. Da última vez em que foi ao cemitério abandonado no alto da colina, saíra de lá com as pernas bambas. Jurava ter ouvido arranhões nas catacumbas ridiculamente envelhecidas e emboloradas mais ao fundo. Zak sempre evitava passar em frente ao cemitério desde então, sempre o evitava de uma forma sutil, mudando levemente sua rota, evitando o olhar, ou "se lembrando" de algo que esqueceu em sua casa. Mas após esta noite, tudo seria diferente, Zak seria aceito na gangue. Era tudo que Zak precisava, ser aceito. Zak sempre foi um excluído, perdera os pais bastante cedo, em um terrível acidente de trânsito. Fora morar com os tios, no subúrbio, e a costumeira revolta juvenil aflorara, passou a cabular aulas, só parava em casa para dormir, quando dormia. Passara a frequentar locais onde "pessoas do bem" não frequentavam. Ia à festas noturnas que banhadas a alucinógenos e deus sabe lá o que mais.

 

Mas agora, era só ele e o velho cemitério. O teste para entrar na tal gangue, o exame final. Deveria entrar, ficar por mais ou menos meia hora, escrever seu nome com spray em alguma lápide, marcando-a como dele, e pronto, bem vindo ao clube. Mas o maldito cemitério, onde os mais antigos dizem que sempre fora símbolo de mau agouro, estava entre ele e seu objetivo final. Desde 1840, o local servia como cemitério de escravos, só deus sabe quanta dor e sofrimento foram enterrados lá. Mais tarde, durante a Guerra da Secessão, defuntos indígenas era atirados em valas abertas no meio do cemitério, tendo seu campo espiritual negado. A partir daí, o local ganhou a fama de mal assombrado. Pessoas estranhas o visitavam de madrugada, cânticos nefastos podiam ser ouvidos em meio a uivos sombrios nas noites de Beltane. Ah, algo de ruim acontecia ali, era claro como a água. O antigo sacerdote, Reverendo Murphy dizia que era a família Clark, que viera há muito de Salém, mas se recusavam a largar "velhos hábitos". Sempre fazia o sinal da cruz quando os mencionava, como que se lembrando de algo que não deveria ser lembrado.

 

Tempos passados, esqueletos enterrados. Hora de Zak entrar no cemitério. Zak havia se convencido na última semana que os tais ruídos que ouvira da última visita ao antigo cemitério não passaram de devaneios, talvez induzidos por alguns de seus entorpecentes. Ele levara consigo também um rádio, e um par de fitas K7, com rockabilly e Smiths. Seria seu alívio, o ajudaria a suportar os trinta minutos de tensão.

O portão do cemitério estava pendurado, na diagonal, seguro por apenas alguns parcos parafusos, prestes a virem ao chão a qualquer momento. A última coisa que Zak queria era o barulho infernal do pesado portão de barras de ferro enferrujadas e carcomidas se estatelando em plena madrugada, toda cidade ouviria, mesmo estando no topo da colina. Haviam muitas velas iluminando o lado externo, muitas pessoas acendiam velas para os mortos, um modo de iluminar os caminhos dos que já partiram. Zak apanhara uma das velas, botara sobre seu rádio, usando a cera quente como uma cola para unir vela e aparato. Passara primeiro o rádio pelo portão, o posicionando sobre um pequeno gramado, logo depois, Zak se contorcia para passar despercebido pelos débeis parafusos vigias. Fora bem sucedido, Zak agora estava dentro do cemitério, rodeado por lápides antiquíssimas, com nomes há muito apagados, armações de madeira que precarimente lembravam cruzes, ou símbolos mais estranhos, mas com certeza, eram cruzes, seus formatos alterados pelo passar dos anos. Mais ao fundo, as criptas, esverdeadas pelo limo, deformadas pelo tempo. Com suas escadas empoeiradas e decrépitas indo para as entranhas do cemitério. Não, lá Zak não ousaria entrar, o combinado não era esse, e Zak logo trata de pensar em coisas mais suaves, seus braços e nuca já começavam a se arrepiar.

Tumbas sem nome, tumbas violadas, esqueletos parcialmente inteiros, cruzes em um arremedo religioso. Zak estava quase lá, haviam se passado pouco mais de 10 minutos, e uma de suas fitas estava trocada por lições de francês, suas fitas sempre se confundiam com as de sua prima. Seu nome já estava escrito na lápide mais ao leste, colada à cerca desmantelada, era só esperar...esperar...

Prestes a mudar a fita de francês, Zak quebra o som meloso dos verbetes francos e consegue ouvir passos do lado de fora do cemitério. Seus amigos, talvez? Zak vai para a cerca e olha para a ladeira que sobe pela lateral do cemitério e vê pessoas subindo, mas não eram seus amigos. Pessoas encapuzadas, por volta de meia dúzia delas, incensários em suas mãos, se agitando contra o vento da madrugada, embalados pelo moroso ritmo de seus braços. O cheiro dos incensos já alcançara o cemitério, e o odor não era nada bom, lembrava uma casa abandonada, tomada por bolor e fungos indesejados, o que diabos estavam queimando? Alguns carregavam lamparinas, outros, livretos pressionados contra o peito. Subiam em total silêncio, quebrado algumas vezes pelo farfalhar das brasas dos incensários.

Zak entrara em pânico, não havia outra rota de fuga, e era claro que estavam vindo para o cemitério, estavam a poucos metros, e não havia nenhum outro lugar para se ir na maldita colina. Tratou de apagar a vela sobre o rádio, o pôs sob o braço e correu, atrapalhado pelas vinhas e raízes de árvores inexistentes, corria de modo atrapalhado, por diversas vezes se equilibrando com dificuldade. Corria em direção às criptas, seu sentido de auto-preservação falara mais alto, havia mandado o medo das criptas às favas. Os metros até as construções insólitas transformaram-se em milhas, maldita adrenalina. Zak olhara para trás a tempo de ver que um dos encapuzados já se encontrava no interior do cemitério, deviam saber de alguma outra entrada mais rápida e prática, pois não utilizaram o velho portão. Desesperado, Zak se arremessa escada a baixo, batendo de cabeça na pesada porta de ferro da cripta, produzindo um som maciço. Som esse, tendo passado despercebido pelos presentes ou ignorado. Com o golpe, a pesada porta se abrira, e Zak se esgueirou para dentro. Como ele gostaria de sentir o cheiro dos incensos de novo, pareciam um campo de morangos em plena época comparados ao odor da negra tumba. Recusou-se a olhar para o interior da mesma, se restringiu a somente olhar pela fresta da porta, esperando o momento exato de fugir. Os incensários foram apagados postos ao redor do círculo que os encapuzados agora criavam, as lamparinas revelando a cor vinho amarronzada de seus robes foram posicionadas sobre lápides e cabeças de tumbas mais elevadas. Um encapuzado de forma mais esguia se locomovia, se dirigia para o centro do círculo, o cheiro do incenso agora tomava conta de todo o cemitério, e se misturava miseravelmente ao odor da cripta. O encapuzado no centro se movia de modo ritmado, conforme os presentes entoavam um cântico bizarro, em um dialeto ainda mais estranho. Zak nunca havia ouvido tal idioma, mas lhe dava calafarios, eram urros, semi palavras, interrompidas por estalos guturais, mesclados outrora por um inglês estranho que Zak se pegara balbuciando por noites de pesadelos sem fim após esta. As palavras que Zak falava em seus pesadelos febris, eram:"IÄ! IÄ! Shub-Niggurath! A cabra preta da floresta com mil crias!IÄ! IÄ! Shub-Niggurath!"

Os encapuzados se moviam de modo arqueado, quando o encapuzado do centro se revelou ser uma encapuzada...grávida! Os cânticos agora ficavam frenéticos, Zak se encolhia dentro da cripta, tremendo em pavor ao ver que a mulher se deitara sobre uma tumba em posição de parto. Uma pontiaguda faca curva brilhava sob o luar, e descera violentamente sobre o ventre da gestante. Zak virara o rosto, como que se esquivando instintivamente do distante jato de sangue. Os cânticos urrados agora possuíam uivos, uivos que vinham, para o pavor de Zak, do interior da barriga da mulher. Os encapuzados dançavam uma dança bizarra, e a mulher se contorcia e urrava conforme um dos homens de capuz introduzia as mãos em seu interior. Zak sentiu as raízes mortas tremerem sobre ele, um pedaço do que seria um cordão umbilical fora atirado para dentro de um dos incensários, guinchando como um filhote de rato. Maldita família Clark, então era isso que faziam no cemitério nas madrugadas. O homem retirou um feto, não dava para ver coo era, estava longe, e sua visão estava embralhada, Zak habia vomitado, e sua cabeça girava como um peão. Os urros diminuíram, e a mulher fora removida da tumba. Um pequenino caixão aparecera, até então, tal artefato não havia se mostrado, e em seu interior, fora posicionado o feto, inacreditavelmente vivo, pois agitava os braços e pernas assimétricas, de bizarra coloração almiscarada agora sob a luz das lamparinas, e ainda uivava macabramente. Fora fechado o caixão e posto dentro da tumba que servira de maca. A criança deformada arranhava o caixão, remetendo ao mesmo arranhar que Zak lutara tanto para se esquecer, e que agora ouvia por toda cripta, como que em resposta ao recém enterrado.

Os homens fecharam a tumba, a mulher, amparada pelo grupo agora descia torpidamente a ladeira, agora entoando morosamente palavras emboladass, como que enebriada pela dor grotesca que se alojava em seu ventre brutalmente violado. Zak se levanta, pernas bambas a o guiarem para fora da cripta ensurdecedora, os arranhões e uivos pareciam vir de pequeninos caixões chacoalhantes no interior da decrépita edificação. O cemitério estava agora entregue à escuridão, e manchas de sangue já coagulados jaziam pelo chão, narrando uma história profana. Árvores mortas chacoalhavam como que se regozijando com o evento, sacolejando ao balançar de ventos imperceptíveis, por algumas vezes, pareciam possuir vida própria. Ao passar atônito ao lado da lápide berço, percebera que era a lápide com seu nome. Pobre Zak, não suportou, e desabou.

Fora encontrado dias depois, inundado por uma febre absurda nos arredores da colina. Na semana seguinte, no hospital da cidade, ainda febril e com a pior dor de cabeça que já tivera, Zak acorda. Sua família estava lá, tios e primos o olhavam com estupor, Zak falara, e muito, de acordo com relatos pavorosos de seus entes, enquanto estava enfermo e delirante na última semana, coisas que somente deveriam ficar presas naquele cemitério, junto aos escravos, índios, e lápides desconhecidas. Mas uma delas tem um nome, e em seu interior, algo ainda uiva nas noites de lua cheia, as mesmas noites de lua cheia em que Zak acorda arranhando as paredes de seu quarto balbuciando palavras de horror primitivo.


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Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010

Canção do Oceano

 

Sob os penhascos, perto dos troncos apodrecidos, na beirada entre areia e água, algo impossível acontece. Um homem aparece, de pé, sobre o mar. Seu rosto é impossivelmente puro. Seus olhos estão fechados. Não sei como, mas ele olha pra mim.
"Quero te deixar com medo," ele diz. Sua mão se fecha. Valas e fossos se abrem na areia. A praia sob mim, balança e então, repousa.
O cheiro do mar vai embora. As ondas se jogam contra a costa, mas seus sons não mais existem.
Quero correr. Mas não me atrevo. Quero dizer pra ele que sou só uma pessoa comum.
"Quero que você entenda que podemos lhe trazer dor a qualquer momento que desejarmos."
Minha língua se dissolve. Sangue inunda minha garganta.
"Se eu tiver tempo, vou matar você."
Então algo muda.
Um milagre corre através de mim como água corrente, e caio de joelhos. Por um momento, não posso sentir mais nada; compreender mais nada; pensar em mais nada. Só posso sentir as marés da mudança lavarem minha alma.
Não poderia ter entendido a maravilha disso antes deste momento. Ele faz com que as alegrias e tristezas de minha vida pareçam transparentes e vazias. Ele soa mais alto do que qualquer sino e queima mais forte do que o sol. É mais bonito que o mar, e bem mais exigente.
Minhas mãos correm pela areia e conchas. Minha mente pulsa para frente e para trás, em um momento contemplando o prodígio que se move dentro de mim, em outro momento, lutando para fugir. Temo que isto possa me engolir, me puxar como a corrente marinha, me revirar e me deixar preso dentro deste milagre pelo resto de minha vida.
Então ele se ergue e toca o que resta do meu eu antigo.
Meu corpo está doente, vomitando água salgada. Existem pedaços de algas marinhas saindo de mim. O homem vem em minha direção, e agora ele segura uma arma em sua mão. Não faço idéia do por que ele precisa dela. Acho que eu gostaria de viver, mas é difícil me focar nisso.
Por todo o mundo, pessoas falam. Carros buzinam. Coisas fazem barulho, lançam suas vibrações pelo ar. Não posso ouví-las, mas as conheço. Conheço cada uma conforme se elevam e morrem. Conheço os urros do oceano e as águas saltitantes de todo lago.
Meus braços estão muito fracos para me levantarem. Meus dedos do pé estão gelados. Tenho uma dor de cabeça.
Não preciso de meus braços, dedos ou minha cabeça. Só preciso olhar dentro de minha alma e descobrir que tenho inúmeros corpos. Posso cavalgar os trovões e dançar nas vibrações de uma fuga de Bach. Cada onda que corre por este mundo, é minha; e o milagre não para por aí. Eu sou elas!
Anseio por um momento. Eu me tornei - não tenho nome pra isso. Me tornei a essência, a composição, o espírito da onda. Não posso imaginar domínio maior; não desejaria comandar o Tempo, ou Amor, ou o próprio cosmos. Cada onda que percorre o mundo é minha.
A arma dispara.
Por um momento, vivo nas notas da flauta de um jovem homem, cada uma delas, uma vibração própria. Por trás destas notas, começo a ouvir uma música mais profunda.
Me espanto. Todos esses anos, o universo vem cantando seus segredos e verdades para mim, e eu simplesmente falhei eu ouvir. Não tento clamar esta música; ela transcende o que me tornei. Somente abro meu espírito e ouço.
Cinco vibrações, em harmonia e dissonância. Do céu chove a verdade do Firmamento. Ouço anjos cantarem sobre justiça, beleza e respeito. Suas canções não possuem resposta para uma bala, mas ela nem mesmo precisa de uma. "Você precisa ter a força para encontrar sua própria resposta para isto," ela diz, "pois se você não pode criar justiça, qual seria o seu valor?"
Das profundezas, ferve a canção do Inferno. Ouço os caídos pregarem seus refrões ríspidos de sofrimento, corrupção e poder. "Você está deitado indefeso na praia com um inimigo mortal," eles me dizem, "e somos a única resposta que você encontrará. Sirva ao sofrimento, e não temerás sofrer. Sirva a corrupção, e se deleite em sua degradação." Parece tolo para mim, uma tola tentação; mas então, uma voz exótica adiciona palavras ao coral. Por um momento eu vejo, áspera como a areia contra meu rosto a terrível virtude de suas causas.
Ouço o chamado da Natureza por liberdade e loucura. Inexorável e vasta, sua canção ecoa pelo mundo: nunca dê as costas para as verdades interiores. "Você não precisa de nada, só de si mesmo," ela diz. Os infinitos choques das ondas em meu coração concordam.
Duas vibrações se erguem dos humanos ao meu redor: uma clara e outra escura, uma pregando salvação da humanidade, a outra, seu suicídio. Eu as ignoro. Encontrei minha verdade.
A bala atinge minha cabeça.
Por um momento, sinto uma dor cegante. Então a onda se ergue e a engole. Me ergo.
"O que é você?" Pergunto para ele. Ele atira novamente; desta vez, me movo, saindo graciosamente para fora do caminho. "O que eu sou?"
"Vivo fora das coisas do mundo," ele responde. "Sou Omega: o término de sua existência. Da existência de tudo. Só preciso estender minha mão, e assim desejar."
Uma onda se ergue, pronta para arrebentar contra a praia. Ela se dissolve em um instante em água parada. Sinto sua morte de modo visceral, horrível, com uma reviravolta em meu estômago. A onda após essa também morre, e a próxima, como dominós caindo. O mar se revolta, inconfortável, se retorcendo contra os limites do alcance dele.
"Quero que saiba que isto é a medula de seus ossos. Quero que você compreenda que não pode nos opôr. Por esta razão, eu vim, e lhe trago dor."
Por um longo momento, acredito nele.
"Tenho uma língua novamente," eu digo, "e sua bala não me matou."
Seus olhos se abrem, negros como a noite. Uma estrela cai através deles. "Estranho," ele diz, "como humanos precisam somente de uma amostra de poder para tornar-sem arrogantes. Você caminha em um mundo de coisas maiores do que pode imaginar, e você ainda se atreve a desacatar."
Concordo com a cabeça.
Ele guarda sua arma. "Você tem muitas coisas que ama," ele diz. "Lembre-se, quando chegar a hora de nos enfrentar, que elas não são imortais."
Penso em todas as coisas que amo. Ela me chamam, embora de modo mais suave do que as ondas. Eu afundo aquele amor, o afogo em meu coração, e ele ainda volta à superfície: amigos, família, meu lar, minha arte.
"Farei o que for preciso," eu garanto a ele. Não sei exatamente o por que, só sei que ameaças não podem me deter.
Sua expressão se mostra claramente irritada, e ele parte.
Olho novamente para o oceano. Uma película se ergue de meus olhos, ou os cobre; não sei diferenciar. Vejo os grandes e poderosos espíritos das águas, e as verdades brilhantes no coração das gaivotas. Ouço os sussurros sem sentido dos infinitos grãos de areia, e vejo cada face exaltada das ondas conforme quebram contra à costa.
Ergo as mãos e capturo uma, uma jovem e brilhante onda formada segundos atrás pelos padrões do mar. A seguro em minhas mãos, e ela se acalma, esperando pelo meu desejo.
Eu falo, percebendo que enquanto o faço, que esta é a coisa mais maravilhosa possível de se imaginar:"Eu sei o seu nome."

 


publicado por undercover às 03:58
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