Domingo, 10 de Outubro de 2010

Tempestade Anunciada (Storm Front) - Capítulo 1

 

 

 

Ouvi o carteiro se aproximar da porta do meu escritório, meia hora mais tarde do que de costume. Ele não soava muito bem. Seus passos eram mais pesados, mais robustos, e ele assobiava. Um novo cara. Ele assobiava enquanto se dirigia para a porta do meu escritório, e então ficou em silêncio por um momento. E daí ele riu.

E então ele bateu.

Me recuei. Minha correspondência é entregue através da fresta de correspondências a não ser que seja registrada. Tenho uma seleção realmente limitada de corespondências registradas, e nunca é boa notícia. Me levantei da cadeira e abri a porta.

O novo carteiro, que parecia como uma bola de basquete com braços e pernas e uma bronzeada cabeça careca, estava rindo para a placa na porta de vidro. Ele olhou para mim e apontou o dedão para a placa. "Você tá brincando, né?"

Li a placa (as pessoas a mudam ocasionalmente), e balancei a cabeça. "Não, falo sério. Posso receber minhas correspondências, por favor?"

"Então, uh. Tipo festas, shows, esse tipo de coisa?" Ele olhou para trás de mim, como quem espera ver um tigre branco, ou possivelmente algum assistente vestido com roupa engraçada zanzando pelo meu escritório de um cômodo.

Suspirei, não estava no clima para ser caçoado de novo, e estiquei o braço para pegar a correspondência que estava em sua mão. "Não, não esse tipo de coisa. Não faço festas."

Ele segurou a correspondência, sua cabeça se curvou em curiosidade. "Então o que? Algum tipo de vidente? Tipo cartas e bolas de cristal?"

"Não," disse a ele. "não sou um médium." Dei um tranco na carta.

Ele ainda segurava a correspondência. "O que você é, então?"

"O que diz a placa na porta?"

"Diz 'Harry Dresden. Mago.' "

"Sou eu," comfirmei.

"Um mago de verdade?" Ele perguntou, forçando uma risada, como querendo que eu o deixasse a par da piada. "Feitiços e poções? Demônios e encantamentos? Delicado e de pavio curto?"

"Não tão delicado." Sacudi a carta para fora de sua mão e olhei decididamente para prancheta. "Posso assinar por minha correspondência, por favor?"

O sorriso do novo carteiro desapareceu, sendo substituído por uma carranca. Ele me passou a prancheta para me deixar assinar pela correspondência (outro aviso atrasado do meu locatário), e disse, "Você é pirado. É isso que você é." Ele pegou sua prancheta de volta, e disse. "Tenha um bom dia, senhor."

Olhei ele partir.

"Típico," resmunguei, e fechei a porta.

Meu nome é Harry Blackstone Copperfield Dresden. Conjure-o por seu próprio risco. Sou um mago. Trabalho em um escritório no centro de Chicago. Até onde sei, sou o único mago profissional abertamente praticante no país. Você pode me achar nas páginas amarelas, na sessão de "Magos." Acredite ou não, sou o único lá. Meu anúncio se parece com isso:

 

HARRY DRESDEN – MAGO

Consultoria. Conselhos. Preços Razoáveis.

Sem Poções do Amor, Bolsas do Infinito, Festas, ou Outro Entretenimento.

 

Você focaria surpreso em saber quantas pessoas me ligam para perguntar se estou falando sério. Mas, se você tivesse visto as coisas que vi, e se soubesse metade do que sei, você se perguntaria como alguém pode não achar que estou falando sério.

Ao final do século vinte e alvorada do novo milênio tem visto uma espécie de renassença na percepção pública do paranormal. Médiuns, assombrações, vampiros – você escolhe. As pessoas ainda não os levavam a sério, mas todas as coisas que a Ciência nos prometeu não tinham acontecido. Doenças ainda eram um problema. Fome ainda era um problema. Violência, crime e guerra ainda eram problemas. Escarniando do avance da tecnologia, as coias simplesmente não mudaram do jeito que todos esperavam e pensavam que mudariam.

Ciência, a maior religião do vigésimo século, ficou meio arranhada por imagens de ônibus espaciais explodindo, filhos do crack, e uma geração de Americanos complacentes que permitiu que a televisão educasse suas crianças. As pessoas estavam procurando por alguma coisa – acho que só não sabiam o que era. E mesmo que estivessem começando a abrir seus olhos novamente para o mundo da magia e do arcano que tem estado com eles desde sempre, eles ainda acham que eu só possa ser uma espécie de piada.

De qualquer forma, foi um mês fraco. Um par de meses, na verdade. Meu aluguel de Fevereiro não foi pago até o décimo dia de Março, e estava parecendo que ia demorar ainda mais para eu pagar neste mês.

Meu último trabalho aconteceu na última semana, quando fui para Branson, Missouri, para investigar uma casa possivelmente assombrada de um cantor de country. Não era assombrada. Meu cliente não ficou feliz com essa resposta, e ficou ainda menos feliz quando sugeri que ele largasse quaisquer substâncias intoxicantes e tentasse fazer alguns exercícios e dormir, e ver se essas coisas não ajudariam mais do que um exorcismo. Recebi as despesas de viagem, mais uma hora de pagamento, e fui embora com o sentimento de ter feito a coisa honesta e justa. Ouvi mais tarde que ele contratou um médium charlatão para ir até lá e realizar uma cerimônia com um monte de incenso e luzes negras. Sempre me surpreendo com esse pessoal.

Terminei minhas anotações e as arremessei na caixa de CONCLUÍDOS. Tinha uma pilha de anotações lidas e descartadas em uma caixa de papelão de um lado de minha mesa, espirais retorcidas e páginas mutiladas. Sou terrivelmente cruel com livros. Estava olhando a pilha de livros não lidos, pensando sobre qual começar a seguir, tendo em vista que eu não tinha nenhum trabalho de verdade para fazer, quando meu telefone tocou.

Olhei para ele com um certo olhar intimidador. Nós magos somos magníficos em esperar. Após o terceiro toque, quando achei que não pareceria um tanto quanto afoito, atendi o telefone e disse, "Dresden."

"Oh. É, uhn, Harry Dresden? O, uhn, mago?" Seu tom era era defensor, como se ela estivesse terrivelmente assustada em estar me insultando.

Não, pensei. É Harry Dresden, o mangusto. Harry o mago é uma porta antes.

Aí está a prerrogativa para os magos serem rabugentos. Porém, não é a prerrogativa para consultores autônomos que estão com seus aluguéis atrasados, então ao invés de dizer alguma tirada espertinha, disse para a mulher ao telefone, "Sim, senhora. Como posso lhe ajudar hoje?"

"eu, hun," ela disse. "Não tenho certeza. Perdi uma coisa, acho que talvez você possa me ajudar."

"Achar artigos perdidos é uma de minhas especialidades," eu disse. "O que eu estaria procurando?"

Houve uma pausa nervosa. "Meu marido," ela disse. Sua voz era um pouco rouca, como a de uma líder de torcida que vem trabalhando em um longo campeonato, mas com bastante peso dos anos nela para taxá-la como uma adulta.

Minhas sombrancelhas se arquearam. "Senhora, não sou realmente um especialista em pessoas desaparecidas. Já entrou em contato com a polícia ou um detetive particular?"

"Não," ela disse rapidamente. "Não, eles não podem. É isso, não falei com eles. Oh, Deus, é tudo tão complicado. Não é algo que possa ser dito pelo telefone. Desculpe ter tomado seu tempo, Sr. Dresden."

"Espera," disse rapidamente. "Desculpe, não me disse seu nome."

Houve aquela pousa nervosa de novo, como se ela estivesse checando uma folha de anotações antes de responder. "Me chame de Monica."

Pessoas que não sabem nada de magos não gostam de lhes dar seus nomes. Estão convencidos de que se eles, através de seus próprios lábios, derem seus nomes a um mago, ele podem ser usados contra eles. Para ser honesto, eles estão certos.

Tenho de ser o mais educado e inofensivo que eu puder. Ela estava quase desligando por pura indecisão, e eu precisava do emprego. Eu poderia, provavelmente, achar o patrão, se eu trabalhasse na situação.

"Ok, Monica," disse a ela, tentando soar o mais melodioso e amistoso possível. "Se acha que sua situação é de natureza sensitiva, talvez você possa vir até meu escritório e falar sobre isso. Se eu realmente vier a ser sua melhor ajuda, o serei, e se não for, então posse lhe encaminhar para alguém que acho que possa ser melhor." Cerrei os dentes e fingi um sorriso. "Sem cobrar nada."

Pode ser que o negócio de não cobrar nada tenha funcionado. Ela concordou em vir imediatamente, e me disse que estaria lá em uma hora. Isto colocava sua hora de chega em mais ou menos duas e meia. Tempo o suficiente para eu sair e comer algo, e então voltar para o escritório para encontrá-la.

O telefone tocou de novo, quase que instantaneamente, me fazendo pular. Fiqueo olhando para ele de rabo de olho. Não confio em coisas eletrônicas. Qualquer coisa manufaturada após a década de quarenta é suspeita, e parece não gostar muito de mim. Você escolhe: carros, rádios, telefones, TVs, Videos Cassetes – nenhum deles parece se comportar bem comigo. Nem mesmo gosto de utilizar canetas automáticas.

Atendi o telefone com uma falsa alegria que invoquei para a Monica Marido-Desaparecido. "Aqui é Dresden, posso lhe ajudar?"

"Harry, preciso de você no Madison nos próximos dez minutos. Pode estar lá?" A voz do outro lado da linha também era a de uma mulher, soava tranquila, ligeira, empresarial.

"Olá, Tenente Murphy," caprichei, exagerando na sacarina, "É bom ouvir você também. Faz tanto tempo. Ah, sim, eles estão bem, estão bem. E sua família?"

"Poupe-me Harry. Tenho um casal de corpos aqui, e preciso que você dê uma olhada."

Fiquei sério imediatamente. Karrin Murphy era a diretora de Investigações especiais do centro de Chicago, realmente indicada pelo Comissário de Polícia para investigar crimes rotulados como incomuns. Ataques de vampiros, trolls pilhadores, e abduções feéricas de crianças não se encaixavam muito bem em um relatório policial, mas ao mesmo tempo, pessoas eram atacadas, bebês eram sequestrados, propriedades eram danificadas ou destruídas. E alguém tinha que investigar isso.

Em Chicago, ou quase em qualquer lugar na Terra de Chicago, este alguém era Karrin Murphy. Eu era sua biblioteca do sobrenatural ambulante, e consultor remunerado para o departamento de polícia. Mas, dois corpos? Duas mortes por meios desconhecidos? Nunca havia lidado com algo do tipo antes.

"Aonde você está?" Perguntei.

"Hotel Madison na Décima, sétimo andar."

"É só quinze minutos a pé do meu escritório," eu disse.

"Então vocêpode estar aqui em quinze minutos. Bom."

"Hun," eu disse. Olhei para o relógio. Monica Sem-Sobrenome estaria aqui em pouco mais de quarenta e cinco minutos. "Eu tenho uma espécie de compromisso."

"Dresden, tenho uma espécie de par de cadáveres sem pistas e sem suspeitos, e um assassino à solta. Seu compromisso pode esperar."

Meu temperamento se inflamou. Ele faz isso com frequência. "Na verdade, não pode," eu disse. "Mas vou te dizer, vou dar uma volta e passo aí para dar uma olhada, e estarei de volta para cá a tempo do compromisso."

"Já almoçou?" ela perguntou.

"Que?"

Ela repetiu a pergunta.

"Não", eu disse.

"Não almoce." Houve uma pausa, e quando ela falou de novo, havia um certo tom doentio em suas palavras. "É ruim."

"Quão ruim estamos falando aqui, Murph?"

Sua voz suavizou, e isso me assustou mais do que quaisquer imagens de morte violenta pudesse fazer. Murphy era a genuína garota durona, e ela se orgulhava em nunca ter demonstrado fraqueza. "É ruim, Harry. Por favor, não se atrase. O Crimes Especiais tá se coçando pra meter os dedos nesse caso, e sei que você não gosta que pessoas toquem a cena antes que você possa olhar."

"Estou indo," disse a ela, já ficando de pé e vestindo meu casaco.

"Sétimo andar," ela me lembrou. "Te vejo lá."

"Ok."

Apaguei as luzes do meu escritório, saí pela porta, a tranquei atrás de mim, fiz uma careta. Não tinha certeza o quanto iria demorar para investigar a cena de Murphy, e eu não queria perder a chance de falar com a Monica Não-Me-Faça-Perguntas. Então abri a porta novamente, peguei um pedaço de papel e uma taxinha e escrevi:

Saí por pouco tempo. De volta para compromisso às 2:30. Dresden.

Com isso feito, comecei a descer as escadas. Raramente uso o elevador, mesmo comigo trabalhando no quinto andar. Como eu disse, não confio em máquinas. Elas sempre estão quebrando quando mais preciso delas.

Além disso, se eu fosse alguém nessa cidade utilizando de magia para matar duas pessoas de uma vez, e não quisesse ser pego, teria certeza de remover o único mago praticante que o departamento de polícia tinha em suas fileiras. Gostava muito mais das minhas chances nas escadas do que nos confins estreitos do elevador.

Paranóico? Talvez. Mas só por que você é paranóico isso não quer dizer que não tenha um demônio invisível prestes a comer sua cara.


publicado por undercover às 09:42
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